A Tradição Primordial também é dita "perene" porque sabe se transformar e adaptar, seguindo as próprias diretrizes da vida, sobre balizas universais que asseguram o equilíbrio do Todo, hoje em dia também chamado de “Holístico”. Costuma-se definir este eixo através de Trindades divinas.
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quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

DO AMOR CORTÊS ÀS ALMAS-GÊMEAS

Dante e Beatriz
São Bernardo de Claraval (1090-1153), responsável pela aprovação da Ordem do Templo e pela elaboração dos seus estatutos, falava da evolução do amor humano, desde o amor-próprio até o amor impessoal focado em Deus.
Certamente podemos ver nos relacionamentos humanos etapas deste constructio afetivo, bastando observar o quanto o amor idealizado pela amada e pelos próprios filhos torna um ser humano mais altruísta, embora também possa gerar fortes sentimentos de posse concomitantemente.
Contudo, a paixão pelo sexo oposto é que pode realmente construir este enlevamento. Mas mesmo o chamado amor platônico, comumente mal compreendido, pode possuir virtudes espirituais expressivas, de enlevo e arrebatamento que se aproxima da devoção ou do amor espiritual.
Mais ou menos na época de São Bernardo, surgiu na França o amor cortês, idílico e platônico, valorizado mais o ato de estar apaixonado que a sua a consumação. Para isto, o amante cortês buscava formas de amor que impedissem a consumação, e nisto o apaixonar-se por uma mulher casada seria o ideal, especialmente em se tratando da mulher de seu amo ou cavaleiro do qual se era vassalo, e a cuja senhora devotava os mais nobres sentimentos secretamente servindo-a como ao seu senhor, vivendo assim no fio-da-navalha com seu secreto objeto de amor. Num certo sentido, o amor de Lancelot por Guenevere retrata uma extrapolação deste quadro, ainda que Lancelot não fosse um mero cavalariço mas o próprio campeão do rei, o que lhe dava um status distinto aos olhos de todos.
Sir Lancelot e lady Guenevere, tapeçaria medieval
Aos poucos, este amor idílico vai se refinando. Foi entre os cátaros que este “platonismo” tomou forma sob o nome de mine, o amor idealizado e casto, vindo a influenciar toda a Europa (ver nossa obra “A Volta dos Templários”). A Cruzada Albigense (1209-1244) deu fim à florescente cultura do Languedoc, contudo, a semente estava lançada.


Num certo sentido, esta transformação do amor foi verificada na própria evolução da obra de Dante Aliguieri (1265-1321), entre a “Vita Nova” (onde já descreve o amor platônico como “fino amor”) e a “Divina Comédia”, com suas tantas menções sobre o amor sublimizado a Beatriz. Este amor platônico de Dante por Beatriz, deu a senha para uma forma de amar que ganhou amplos adeptos na Alta Idade Média, originando o culto dos “Fiéis do Amor”, de que Guenón trata em “O Esoterismo de Dante”. Citemos, pois:
“O Fedele d'Amore era uma sociedade iniciática de poetas italianos, e Dante foi o mais proeminente entre eles. Para esses poetas, a imagem da amada revelou a Sophia Divina, despertando, assim, estágios mais elevados de consciência. Para Dante, foi Beatrice que atuou como seu guia. A tradição similar existe entre os poetas islâmicos. Ibn Arabi teve sua Nizam, a bela e inteligente filha de um patrono. Para Hafiz, foi a visão da bela filha de um nobre que levou à sua vocação de poeta e místico. Alguns suspeitam que uma conexão direta entre os sufis e Dante.” (Cologero –ver Bibliografia)
Certamente podemos aproximar estas práticas de muitas alusões procuradas pelos antigos alquimistas, inclusive tendo em vista uma sublimação progressiva. Ademais, quase podemos comparar esta mine ao amor ou à meditação tântrica oriental da “via seca”, isto é, sem a participação de uma consorte. Na via úmida, ou com consorte (o maithuna), o casal tântrico também buscava a orientação do guru como meio para preservar a castidade prática e a integridade do exercício mágico, prescrito como uma via de guerreiro, ideal da raça árya. Esta prática inclui uma forma de deva ioga, onde os parceiros buscam “sentir-se deuses” como forma de preservar o poder.
Gravura alquímica e imagem tântrica de Kajuraho
Na nova raça-raiz, contudo, existe uma evolução deste quadro, uma vez que a abertura do chakra do coração habilita já o ser humano a uma realização superior e efetivamente plena e perfeita, consumada e não obstante pura... E uma vez juntos ele vivem uma grande harmonia de sentimentos e de idéias, pois supostamente eles já vêm juntos de uma caminhada anterior. Porém, muitas vezes as missões assumidas nem sempre permitem ou até impedem uma relação mais estável, como poderia sugerir, por exemplo, a senda dos Grandes Renunciantes que são os Bodhisatwas.

O contato da alma-gêmea existe em boa parte para nos ensinar a amar toda a vida e a Deus. Por esta razão é que estes encontros costumam ser tão fugazes quanto reveladores, mais ou menos como uma “revelação” ou um chamamento que recebemos na juventude como o despertar de uma vocação, para darmos então início a uma busca decidida pela Verdade.
Por isto, em muitos casos este amor pode resultar num culto eterno à amada, que não obstante não pode ser equiparado diretamente ao chamado “amor platônico” porque tem na sua base a consumação de uma intimidade superior. Casos desta natureza tem dado muitas vezes origem a atos heróicos que transformam a História, e não poucas vezes um grande amor esteve no centro de grandes batalhas como foram a Ilíada (tendo como pivô aparente figura de Helena de Tróia) e o Ramayana (com o rapto da Sita de Rama).
Conhecer a alma-gêmea depende de mérito, mais que da sorte, porque este é um relacionamento para a evolução de ambos e do todo, revelando uma intimidade pura, intensa e elevada entre complementos ideais que estimula a busca da perfeição e da unidade. Talvez seja esta, pois, a grande base da reaproximação do céu e da terra, preconizada para a Nova Era.

Helena e Páris, Jacques-Louis David, 1788

Bibliografia
Cologero, “Fedele d’Amore and the Tantric Path”, http://www.gornahoor.net/?p=553
Luís A. W. Salvi, “A Volta dos Templários”, Ed. Agartha
Luís A. W. Salvi, “Almas-Gêmeas – o Graal da Nova Rara”, Ed. Agartha
Michel Silva, “Dante e o amor cortês” (monografia)
René Guenón, “O Esoterismo de Dante”
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