A Tradição Primordial também é dita "perene" porque sabe se transformar e adaptar, seguindo as próprias diretrizes da vida, sobre balizas universais que asseguram o equilíbrio do Todo, hoje em dia também chamado de “Holístico”. Costuma-se definir este eixo através de Trindades divinas.
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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

A CIVILIZAÇÃO DA SOBERBA (HYBRIS)

Diferenças entre inteligência e sabedoria: uma abordagem dialética

Podemos avaliar proficuamente a diferenciação entre a inteligência e a sabedoria através da ciência dialética, este sistema-primordial de pensamento, reflexo natural das próprias leis do universo que é. 

Assim, os contextos da inteligência e da sabedoria se pode depreender a princípio da Dialética Simples ou Elementar vista como Análise (inteligência) e Síntese (sabedoria), como no esquema abaixo com seus devidos desdobramentos.*


O grande erro dos materialistas está, portanto, em considerar a Antítese com uma práxis, quando na verdade a práxis real está além mesmo da Síntese. Esta é a razão pela qual as suas obras “não prosperam”, porque através disto eles simplesmente ceifaram boa parte das dimensões humanas da consciência.

O problema da inteligência

A inteligência é um processo basicamente mental, que se desenvolve através do treinamento, da observação e da análise supostamente “isenta” das coisas, quando o observador procura se eximir de participar maiormente da experiência. Tal coisa remete bastante, pois, aos métodos que a Ciência ocidental propõe-se a empregar. É a ciência da dissecação das coisas, não da sua integração.

Mister é entender que este método é semelhante à formação dos psicopatas, que desde cedo são auto-treinados como verdadeiros predadores, com o auxílio de alguma deseducação doméstica ou social qualquer, na análise arguta das situações visando colher benefícios sobre as suas falhas e debilidades; razão pela qual muitos indivíduos “precoces” resultam sociopatas. E assim muitas vezes são também por decorrência os negócios humanos, empregando friamente os dados levantados pela “Ciência” na consecução dos seus propósitos de poder e de ganância.

No Ocidente moderno, se criou o absurdo preconceito de que o trabalho físico representa algo ruim e vergonhoso, como um elemento próprio da pobreza, e deste modo muitas vezes se exime a criança de todo o esforço físico, até mesmo o mais elementar (salvo certos esportes mais “refinados” e os exercícios da “educação física”). Por poucos as famílias ricas não pedem às amas (empregadas, servas ou escravas) que escovem os dentes dos “pobres riquinhos” ou que limpem as suas bundas; se é que não o fazem.

A Civilização Iluminista tem prestado um desserviço tremendo a humanidade criando gerações de pessoas elitistas, soberbas, individualistas e preconceituosas, coisa que todavia segue neste modelo educacional vigente sem ser contestada, pelo contrário, cada vez mais os governos privam as terras de mão-de-obra por razões pseudo-humanistas, mas que na verdade atendem aos interesses do Grande Mercado.

A formação científica e materialista é um produto direto deste tipo de educação. Pois na verdade o trabalho físico é muito educativo e necessário, especialmente para a formação espiritual do ser humano, e quem priva a juventude de se dedicar a ele, são os mesmos que mantém no cativeiro aqueles que julga inferiores a si (por “motivos” culturais, sociais ou raciais) para lhes servir “eternamente” e sem nenhuma esperança de ascensão social, e na melhor das hipóteses sonham com que as máquinas possam vir a suprir cada vez mais estas suas “necessidades” para substituir tais “peças” humanas desagradáveis e incertas que, afinal, sempre podem se rebelar colocando em risco os negócios, o patrimônio e até a integridade física daqueles indivíduos mais nobres e abençoados pelos céus... Esta soma de ganancia e elitismo resulta numa civilização praticamente sociopata ela mesma, cujo ônus recai sobre a natureza e a humanidade em geral.

A palavra “formatura” denota um conceito dúbio, é a pessoa que entrou numa fôrma, ainda que se queira dizer que adquiriu uma fórma. Muitas pessoas que sofrem este tipo de de-formação metal, não possuem parâmetros para avaliar as suas próprias limitações. A soberba intelectual as acompanha sempre, soberba que resume o importante conceito grego de hybris, essência dos descaminhos e da esterilidade da condição humana, e que se expressa na verdade no próprio Pecado Original bíblico de separatividade e do orgulho. Hybris é uma deusa-aranha grega que enreda as criaturas e finalmente as mata.


Então, mesmo criticando a sociedade que a cerca, elas acabam obtendo uma visão distorcida e parcial dos fatos, por terem uma formação limitada e uma informação dirigida, de modo que conhecem apenas o lado negativo das coisas, podendo imaginar anarquicamente que para achar a liberdade devem se afastar das coisas em geral, e não apenas das coisas ruins –coisa que obviamente terminam por nunca fazer por simples falta de opções; sublinhando assim o curso das mentalidades mal-formadas. Os marxistas não incorrem neste erro mas em outros, porquanto ceifam igualmente as dimensões superiores da humanidade.

A sabedoria humana: uma práxis integral

A sabedoria, por sua vez, nasce precisamente da participação e do envolvimento da pessoa, que jamais se coloca como um simples “observador”. A sabedoria resulta na verdade de uma ciência-de-relações, ao contrário da inteligência que se vale da análise das coisas isoladas.

Existe em nosso meio uma associação entre inteligência e poder, na percepção de que a inteligência desumaniza e torna o ser humano frio. Tal coisa não deve acontecer porém nos meios espirituais, onde o amor caminha junto com o saber e na verdade lhe dá nascimento.

Verdade que mesmo na espiritualidade em geral também existe uma margem sombria que se chama por vezes de “Loja Negra”, onde prevalecem as tendências mentais, coisa que não exime algum treinamento ocultista visando a obtenção de poderes mentais, coisa que se levado a extremos também ajuda a cristalizar um ego poderoso e obcecado, vaidoso e autocentrado.


Existem gênios de diversas índoles, porém em alguns deles o conhecimento é fruto de um trabalho interior e floresce como sabedoria segura e equilibrada, não voltada para o poder e o egoísmo. A sabedoria tem suas próprias leis, vias e metas. Quem é educado pela mente até pode se reeducar através dos caminhos da própria sabedoria, mas pretender encontrar a sabedoria através da mente é uma falácia que inverte perigosamente a subordinação natural das coisas. O resultado será um ego sem tamanho, e se conhece uns tantos assim. Na área esotérica também sofremos com os preconceitos contra o conhecimento, mesmo a sabedoria sendo um equilíbrio entre fé e ciência.

René Guenon advertia à seu modo: “aquilo que vemos no mundo moderno não é ciência, é indústria” (em “O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos”). Veja o destino da “ciência”, mesmo a humanista, é promovida e empregada pela indústria capitalista e bélica. Muitas dádivas aparentes da civilização são frutos da pesquisa militar, inclusive a internet. Enfim, são reduzidos, dúbios e comumente negativos os frutos da ciência divorciada da sabedoria.

E isto também acontece às vezes com o marxismo, o que se relaciona ao anterior histórica e dialeticamente como se sabe. Certamente outra mentalidade faria um uso mais nobre destas informações, para libertar e não para aprisionar, como provavelmente se fará no futuro, subordinando a ciência à sabedoria. Mas este não é o rumo atual das coisas. Note porém que usamos o termo “Iluminismo” para abranger o período atual do mundo, pós-revolução francesa. Ora:

Iluminismo => revoluções burguesas => revoluções proletárias.

Não contestamos Galileu, com certeza, mas todo um espírito-de-época fragmentário e insustentável. Não queremos voltar ao Medievo, ainda que as Universidades tenham ali o seu berço e o conhecimento tinha um trato sempre mais espiritual. A direção que as coisas têm tomado é que representa muitas vezes o verdadeiro problema. A formação intelectual moderna é uma educação industrial, que dificilmente dá margem para a sabedoria. Seu objetivo é pragmático, particularizado e mercenário, embora possa haver nobres exceções, especialmente se a pessoa tiver inclinações autodidatas.

Deixemos claro assim que nos meios espirituais em especial é que ela pode se libertar da frieza e da maldade (e ainda florescer equilibradamente), ainda que nem ali isto aconteça sempre. 

Contudo, no verdadeiro caminho espiritual, a estrutura da consciência é recuperada colocando na base de tudo o serviço e -se possível- o trabalho físico –coisa esta simbolizada por Saturno dentro dos seus códigos semióticos próprios-; razão pela qual chamamos esta fase de reeducação do ser humano.

A Escola Iniciática é um núcleo de redenção cultural e civilizatória, porém o seu verdadeiro objetivo é projetar a Sociedade Iniciática e mesmo a Civilização Holística para renovar ciclicamente os tempos da humanidade.


* Pois tal como na Alquimia, onde os Elementos originais (Fogo;-Água, ou Ying-Yang) se desdobram em outros dois Elementos (Terra-Ar, Jovem Ying-Jovem Yang), a Análise contém em si a Tese (“situação”) e a Antítese (“contestação”, “oposição”), ao passo que a Síntese (“equiparação” de opostos) ainda se desdobra ou completa na Matese (“realização”). 

                                                      Por Luís A. W. Salvi, filósofo perenialista e escritor

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