A Tradição Primordial também é dita "perene" porque sabe se transformar e adaptar, seguindo as próprias diretrizes da vida, sobre balizas universais que asseguram o equilíbrio do Todo, hoje em dia também chamado de “Holístico”. Costuma-se definir este eixo através de Trindades divinas.
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sexta-feira, 15 de maio de 2015

'MARE TENEBROSUM': DO MITO DA TERRA PLANA AO “DIVINO” GEOCENTRISMO




Uma lenda atravessou os séculos à margem dos conhecimentos ilustrados: o mito da Terra Plana, uma lenda que carregava consigo um tabu milenar.
Este mito provinha na verdade desde a Antiguidade e através de culturas desconhecidas, ainda que os sábios (como os gregos Aristóteles, Eratóstenes e Ptolomeu) estivessem perfeitamente inteirados dos fatos "científicos".


Sabemos que na Índia já havia estas concepções, devidamente ornadas por símbolos e criaturas como elefantes, serpentes e tartarugas -todos eles, aliás, facilmente identificáveis nas suas mitologias, cosmologias e Doutrinas do Tempo.
Esta geografia mítica muitas vezes nascia do trato simbólico, coisa que não obstante não importava para muita gente, na medida em que servia para alcançar certos objetivos. A terra centralizada pela Montanha Polar, por exemplo, como o Monte Meru hindu ou o Monte Kailas budista, tinha toda uma concepção cosmológica por detrás.

Transpor Continentes sempre fora um risco, e atravessar Hemisférios poderia ser fatal. Temia-se cair num abismo sem fim, após transpostos os limites seguros e conhecidos de Mare Nostrum, o Mediterrâneo conhecido e familiar.




Mas entre aqueles que porventura sabiam da esfericidade da Terra, como era conhecido pelos gregos antigos e tantos outros habituados a navegar mais amplamente, também temia-se encontrar seres aberrantes nas Antípodas e riscos insuperáveis nas suas águas.
Não obstante, o maior “risco” era sempre cultural. O conhecimento de outros universos poderia atribular as mentalidades, sob o contato com povos incultos e primitivos.


Sedução e magia



Que coisas mais estranhas não praticariam estes seres desconhecidos? Navegantes remotos traziam notícias inusitadas, porém as razões disto nunca foram muito questionadas.
Acaso não desejariam preservar o monopólio de rotas comerciais desconhecidas? Não quereriam eles exagerar nas suas histórias improváveis –às vezes também inventando riquezas inexistentes- para angariar fama, fortuna e prestígio? Será que os povos que contataram não proibiram mortalmente que a sua existência fosse divulgada? E porventura, enfim, os próprios viajantes não desejariam preservar intocadas estas sociedades e civilizações com costumes às vezes tão distintos, mas não raro também tão melhores do que aqueles mais conhecidos?

Quando Marco Polo alcançou a China, ele foi tanto pesquisado como pesquisador, e os nativos passaram a conhecer muito mais daquilo que havia em outras partes do mundo. Nas regiões de maior mistério e espiritualidade, pede-se então suprema discrição, donde a lenda da invisibilidade da Agartha visando desestimular os curiosos.
Sem dúvida, muitos aventureiros solitários foram profundamente cativados pelos povos “exóticos” que os acolheram, entre aromas mis e magias tantas...

A maturação dos eóns

Por muito tempo, os “Novos Continentes” –Américas e Austrália sobretudo- estiveram protegidos graças ao seu isolamento, permitindo que suas sociedades mantivessem o seu estilo-de-vida e até sobrevivessem à cobiça e outros interesses dos ditos “civilizados”.

Tupinambás em defesa, Hans Stadens
Nem sempre se está preparado para aquilo que vai encontrar. Por qualquer razão, os Césares passaram a adotar a divinização imperial depois que encamparam o Egito, e ali mesmo começou a decadência do Império.

A escravidão negreira
O relativo isolamento humano dentro dos Continentes representava antes de tudo uma proteção para a própria pessoa, até que ela se ache realmente preparada para tal. Neste sentido, o Mare Tenebrosum representa uma proteção contra a precipitação do expansionismo humano.
A aventura da Civilização Cósmica que começa hoje principia com todas as dores do parto, mas assim que as coisas começarem a amadurecer e novas sínteses emerjam, as sociedades deverão relembrar a necessidade e a importância de contar com a orientação dos sábios e dos iluminados, como tem sido a prática de toda a Boa Civilização, especialmente para o erguimento das suas colunas principais.

Um mito “moderno”?


Sacrobosco,1550
Se o mito não é moderno, ao menos ele tem sido remistificado.
Certos autores afirmam que a crença antiga na Terra Plana tem sido exagerada pela mentalidade iluminista e protestante, apenas para contrastar as suas “novas ciências exatas” com o “infindável leque de crendices antigas medievais”. No entanto, durante toda a Idade Média grandes sábios católicos como Santo Agostinho e São Tomás de Aquino sustentavam a esfericidade da Terra.



Ao mesmo tempo, também surgiram seitas conservadoras levando a sério esta crença. A “Sociedade da Terra Plana” de Samuel Rowbothan defendia no século XIX rigorosamente esta ideia (juntamente com uma cosmologia geocêntrica peculiar), assim como o seu seguidor que criou a Cidade de Zion, John Alexander Dowie, em Illinois; considerados precursores do neopentecostalismo.

Porém, esta crença não se limita ao passado, seus adeptos vêm até aumentando ano após ano ultimamente, e considera-se hoje a crença da Terra Plana como “a maior de todas as teorias conspiratórias”, eles que não creem ou não querem acreditar na Ciência, ainda que para alguns a teoria não se encaixe neste perfil místico, e sim numa filosofia ou visão-de-mundo que se contrapõe aos métodos da Ciência como uma forma de solipsismo, mais ou menos como certas óticas empiristas medievais ou do realismo filosófico.

Uma nota epistemológica


Todos estes conceitos antigos tradicionais de Terra Plana e Geocentrismo, que para o “humanismo” preciosista representa uma imprecisão-de-percepção, se relaciona ao mesmo tempo a uma visão muito prática, tangível e popular das coisas, capaz de abarcar o espírito holístico face a simplicidade inerente, uma forma de “pegada leve sobre a terra”. 
Já a chamada “precisão científica” exige um esforço especializado contínuo e elitista, cada vez mais sofisticada e inacessível às massas, capaz de inclusive privar o ser humano da sua realidade imediata, gerando forças e poderes que escapam ao controle do vulgo. É o que vemos em nossos dias, quando pagamos um preço alto demais por uma ciência extremamente parcial. 

Contudo, muita coisa que a Ciência conhece, e às vezes até mais, os sábios tradicionais acessam muitas vezes através do raciocínio e da intuição. Nem por isto estes homens sentem a necessidade de divulgar tais informações ao vulgo para aqueles a quem elas não teriam qualquer dimensão prática, privando-a da simplicidade sem outorgar-lhe de fato novos poderes, resultando meramente na alienação-de-si, ou quando outorga o saber resulta em outras formas de alienação como é a ambiental e a espiritual.
Antes trata de oferecer a informação sofisticada e a sabedoria -às vezes até de alta monta- apenas àqueles que realmente buscam ou necessitam o conhecimento, como reza o mito imortal de Prometeu. Tais coisas são conhecidas e têm sido demonstradas através dos tempos. 

Definitivamente, a Terra não era plana para todos.

Os ciclos da cultura e da Civilização


Não é possível dizer que as Civilizações antigas fossem ignorantes –até muito pelo contrário. Inúmeras coisas que hoje usamos, tiveram o seu nascimento na Antiguidade.
Na Índia e na Babilônia, os altos conhecimentos da Astronomia conviviam pacificamente com os mitos da Cosmologia. Os Antigos não se incomodavam em criar linguagens populares para os “Mistérios”, além do que nem tudo se mistura como se pensa.


O Fórum romano reconstituído
Na Idade Média se pode ter perdido muita coisa, ainda que as coisas evoluíam no tempo das Catedrais. A Idade Média representou um refluxo de contra-civilização, necessário após o grande período imperialista da Roma Antiga e dos impérios anteriores.
Na verdade, naquele momento grande parte do mundo vivia um processo feudal ou tribal, após a crise civilizatória dos milênios antigos. A riqueza da Europa colonial se deveu em boa parte a um refluxo desta natureza, pois encontrou sociedades desarmadas sob um “repouso civilizatório”, por assim dizer, além de outras que jamais chegaram a se civilizar...


A Índia vira a extinção da brilhante civilização védica pelo completo assoreamento dos grandes rios Indus e Saraswati. Os maias haviam abandonado (e muitas vezes sepultado) todas as suas cidades, naqueles séculos que antecederam a Conquista espanhola.
Os refluxos civilizatórios são conhecidos do estudioso imparcial das civilizações. Ele reconhece os êxodos urbanos realizados em nome da regeneração humana, que deram origem a novas sociedades e religiões.

Do “divino” Geocentrismo


Benu, a Fênix solar
Hoje, quando vivemos tantos males do imperialismo e da queda da Civilização, certamente está chegando a hora de buscar um novo recolhimento, na direção da retomada dos valores mais essenciais da condição humana.
Um dos ciclos que regem esta dialética, são os ciclos sociais de 500 anos (chamados “Fênix” no Egito Antigo)
, que intercala sociedades espirituais e sociedades materiais. Os começos dos milênios são mais espiritualistas, e os finais dos milênios são mais espiritualistas.*

sistema geocêntrico
Mas também existem outros ciclos, maiores e menores, repartidos da mesma forma. O quadro resulta algo complexo, mas acessível. Ele pode ser simbolizado pelas diversas “dialéticas” que regem a existência física: sístole-e-diástole, inspiração-expiração, dia-e-noite, e assim por diante.
Hoje todos sabem que a Terra não é plana. Mas, de que serve este conhecimento intelectual para muitas pessoas, ademais tão afastadas da Natureza e suas realidades, às vezes capazes de gerar outras concepções-de-mundo?



Se a Terra não era plana para os mais ilustrados, já eles acreditavam comumente no geocentrismo - nem sempre é verdade. O heliocentrsimo já era conhecido por Aristarco de Samos, um século após Aristóteles.
O geocentrismo está ligado também ao antropocentrismo, e em última análise ele remete ao teocentrismo!**

Nesta dimensão das coisas, se acreditava que o universo todo gira em torno da Terra, uma Terra que abriga o Paraíso das criaturas de Deus.
Ainda hoje não podemos dizer existir outros mundos habitados por seres conscientes do infinito, e há teorias moderníssimas sobre o supremo subjetivismo das coisas.***
Assim, também nisto o futuro promete mais uma vez dar os braços ao passado.

* Ver a respeito em nossos estudos sobre o calendário social Cronocrator e no tema dos baktuns maias.
** Esta é a dimensão do “sagrado individualismo” tradicional, que tange ao idealismo. No humanismo se valoriza mais os conceitos científicos e o liberalismo do próprio indivíduo, uma independência extremista questionada pela Filosofia Perene.
*** "Físicos encontram evidências de que realidade pode ser uma mera simulação virtual."

Luís A. W. Salvi é autor polígrafo com cerca de 150 obras, e na última década vem se dedicando especialmente à organização da "Sociologia do Novo Mundo" voltada para a construção sócio-cultural das Américas.
Editorial Agartha: www.agartha.com.br
Contatos: webersalvi@yahoo.com.br 
Fones (51) 9861-5178 e (62) 9776-8957

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