A Tradição Primordial também é dita "perene" porque sabe se transformar e adaptar, seguindo as próprias diretrizes da vida, sobre balizas universais que asseguram o equilíbrio do Todo, hoje em dia também chamado de “Holístico”. Costuma-se definir este eixo através de Trindades divinas.
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sábado, 4 de julho de 2015

A CIDADE ANTIGA OU OS HORIZONTES DA CIDADANIA PLENA

A antiga Bagdá circular
Deveria surpreender que o melhor aproveitamento de uma ideia seja alcançada por seus próprios criadores? É claro que não. E tal coisa acontece também com as cidades, cujo emprego moderno se acha altamente deturpado após adaptações e retomadas históricas mais ou menos recentes por parte de classes sociais menos credenciadas ao seu gerenciamento.

On (Heliópolis, Cairo), Egito
As Cidades Antigas são amiúde reconhecidas por sua grandeza, riqueza e diversidade. Contudo, tudo da vida tem o seu prazo e função delimitados. E assim, após seus primeiros milênios de fundamentação, glórias e posterior ocaso, na Idade Média houve um profundo istmo cultural em relação ao urbanismo, nos moldes como havia sido elaborado pelas sociedades antigas. E estas mesmas sociedades concordaram então em abdicar deste padrão cultural em toda parte, quando viram que já não estava dando bons resultados, optando então pelo feudalismo.
Ocorre que, para dar bons resultados, esta estrutura social necessita ser administrada a partir de critérios superiores, os quais já não estariam mais acessíveis então. Mais tarde, porém, a burguesia renascentista achou que as cidades grandes eram boas para os seus negócios, vindo a usurpar e a “reciclar” assim esta antiga estrutura cultural, sobre a qual não possuía todavia credenciais e nem legitimidade, a fim meramente de emergir socialmente e se apoderar dos Estados nacionais.


Carcassonne, França
As origens das cidades: uma breve antropologia cultural

É certo que uma estrutura cultural detém sempre diversas funções e deriva de necessidades múltiplas.
Inicialmente, as cidades teriam surgido de fortificações naturais, como simples promessas de segurança, mas com o tempo foram adquirindo nobreza, à medida em que as pessoas descobriam as vantagens de um convívio social mais próximo - sempre e quando havia uma profunda harmonia dentro do corpo social e a cidade fosse administrada com sabedoria e legitimidade.
Também é natural, neste caso, que as cidades surjam como soluções para grupos culturalmente coesos, em processo de crescimento e na aspiração de proteger a sua cultura e sociedade.


A Tenochtlitan asteca insular
Neste aspecto, sabemos que as sociedades antigas detinham certo caráter endógeno, ou seja, eram não-proselitistas, fomentando religiões ecumênicas de Estado, origem dos antigos “politeísmos” áryos que substituíram os fanatismos atlantes. O proselitista é um dos males humanos, pois além de oprimir culturalmente, também serve aos interesses de opressão humana e econômica. É evidente que houve imperialismo nos tempos antigos, porém, como disse o perenialista Frithjof Schuon, se tratava comumente de “imperialismo do céu”, benfazejo e iluminador, buscando pacificar sociedades fanáticas ou em lutas endêmicas que desestabilizavam regiões inteiras.
Pois bem, este caráter de relativo auto-centralismo cultural que marcou as origens da civilização, se refletia também na organização das cidades antigas, voltadas para a cultura e a cidadania, resultando inclusive no seu amuramento para fins de defesa e proteção das sociedades e suas culturas.



ataques a ônibus no Rio de Janeiro
Hoje as cidades são ambientes devassados e inseguros, obrigando as pessoas a se encerrarem nas suas casas, sobretudo nas sociedades sujeitas à maior desigualdade social. O fechamento da cidade e a redução do seu tamanho, representa muitas vezes um passo crucial para a aquisição ou a restauração da cidadania.
A ideia da cidade fechada impacta bastante o nosso imaginário, lembrando as cidades medievais, como se denunciasse o estado de insegurança em que vivemos todos. Contudo, esta é uma grande hipocrisia do urbanismo moderno, porque de várias formas somos vigiados todo o tempo, e cada vez mais.
O que mudou realmente nos tempos modernos? Ocorre que a Cidade Antiga possuía uma dignidade própria, que substituía a unidade política das nações que temos hoje. Na Antiguidade, as cidades representavam unidades políticas soberanas e relativamente autônomas. Não havia o conceito de nação que possuímos da atualidade, embora pudesse ocorrer o império, abarcando outras cidades ou regiões.



Persépolis, reconstrução artística
Naturalmente, este fato outorgava um status todo especial ao cidadão, já que a unidade política tinha em vista a construção da própria cidadania. As cidades dispunham daí de uma liberdade política especial, mas o preço disto era cuidar de própria segurança e dos seus proventos. Na sociedade moderna sujeita à soberania duvidosa do Estado, recaem todo tipo de ônus e obrigações aos cidadãos.

Dholavira, Gujarat (Índia), reconstrução artística
Assim, a cidade nasceu como uma ideia cultural, que foi sendo aos poucos elaborada. Surgiu algumas vezes por necessidade, e outras de forma deliberada, até que, desde uns cinco mil anos para cá, se tornou um caldo-de-cultura muito comum e quase universal, dando início à Era da Civilização. Na internet existe esta definição”
Civilização (do latim civita, que designava cidade; e civile (civil), o seu habitante) é o estágio da cultura social e da civilidade de um agrupamento humano caracterizado pelo progresso social, científico, político, econômico e artístico.” (Wikipédia)
Assim, a Civilização é a própria cultura das cidades. Todos estes grandes modelos culturais e econômicos que definem a evolução antropológica humana, sempre foram acompanhadas por etapas espirituais muito bem definidas. A cidade veio à luz, para habilitar a existência de um novo modelo antropológico em vista.


Chiban, Iemen: imemoriais arranha-céus de barro
No caso da Civilização, havia uma preocupação especial de concentrar cultura e informação, estando a cidade antiga consagrada para viabilizar a cultura da educação permanente; coisa que ainda não era possível nas humildes sociedades de base rural.
Tal como os templos viabilizaram a religião social no período Neolítico, os palácios possibilitaram a civilização coletiva, afirmando o primado da cultura universal, ainda destinados a uns poucos na época agrário (e ágrafo!) dos templos.
Mais tarde, nos tempos medievais, se passou a tratar das cidades apenas simbólica e minimalisticamente através de vilas e feudos fortificados, onde os castelos indevassáveis eram apenas a última segurança da soberania, servindo de refúgio para toda a população em caso de perigo.
Assim, a Cidade Antiga representa o grande Reino da Cidadania –e como não haveria de ser, quando a novidade foi consagrada pela sociedade mundial? Até cumprir o seu glorioso ciclo, e ainda assim houve depois adaptações sábias da parte dos autênticos porta-vozes da concórdia Universal.


Carcassonne, França

As “mil vantagens” da Cidade Fechada ou Insular

As cidades podem ser boas quando são bem administradas e existe tranquilidade social. Porém, para sociedades desiguais elas se tornam cada vez mais ambientes opressivos e como verdadeiras ratoeiras...
À medida em que deteriora o tecido social, novas medidas de segurança são tomadas, coibindo cada vez mais a liberdade da própria pessoa comum. Lá pelas tantas, suspeita-se que toda esta situação apenas se presta de maneira oportunista ao controle sobre o próprio cidadão, e que o Estado nem deseje realmente resolver os problemas reais.
Pois com isto todos se tornam “suspeitos” e vigiados e se termina simplesmente invertendo a premissa de que “todos são inocentes até prova em contrário”... Infelizmente estas coisas não são meras especulações, porque o Estado realmente possui esta tendência controladora, por motivações ideológicas vagas mas não ocultas. Os opressores adoram pretextos para poder controlar a todos em nome das “boas causas”!



E assim somos vigiados a cada passo, e em pouco tempo pretenderão colocar chips nas pessoas, sempre com as “melhores intenções”, para monitorar ainda mais aquilo que fazemos e pensamos.
A cidade antiga não era negligente quanto à segurança e cuidava da liberdade do seu cidadão. A regeneração social das sociedades oprimidas passa necessariamente pela racionalização do seu ambiente de convívio. E hoje se acrescenta o problema ambiental, que na verdade sempre existiu, mas que a mentalidade liberal/materialista tentou (e tenta) ocultar como pode.

Acaso podemos chamar a estas verdadeiras selvas-de-pedra de Civilização? Obviamente este conceito há muito foi perdido, demandando a sua restauração/renovação efetiva. Infelizmente, não se tem ainda começado a fazer planejamentos urbanos sérios para o futuro da humanidade. Aquilo que existe é basicamente fantasioso (mesmo quando contenha alguns ingredientes interessantes), o que é muito lamentável tratando-se de algo tão importante quanto o ambiente em que as pessoas vivem, convivem e buscam ser felizes – e livres.

Por suas próprias características, a cidade representa sempre uma tragédia em potencial, que necessita ser muito bem planejada. A adaptação das cidades para a cultura-de-massas representa uma destas tragédias, porque se trata de simples administração de espólio-de-guerra.
As cidades burguesas são, desde a época dos burgos medievais, armadilhas para confinar gente (“currais de consumo”) e esvaziar os campos para a exploração comercial.
A cidade moderna consome boa parte das energias produzidas pelo ser humano, apesar de ser um ambiente tão passivo fisicamente. Temos aqui uma boa metáfora do cérebro, o qual consome a maior parte do oxigênio absorvido pelo organismo humano. Com efeito a cidade representa uma estrutura de base intelectual, que apenas pode sobreviver quando administrada com inteligência.
Atualmente, a cidade consome muita energia passivamente, apenas para iluminá-la, por exemplo. E estas luzes ficam acesas para quê? Basicamente para fins de segurança das pessoas. Contudo, se tivéssemos cidades fechadas e reduzidas demograficamente, o caminho para a segurança já estaria resolvido por si mesmo.
O fechamento da cidade permite uma liberdade maior dentro do perímetro urbano, facilitando algo tão importante quanto é o convívio social, outorgando segurança e tranquilidade aos cidadãos. Enfim, a Cidade Fechada apresenta “mil vantagens” para a sociedade, tais como segurança, economia, liberdade e cidadania.

Medievalismo libertador também para o Novo Mundo!



Naarden, Holanda
Planejar cidades novas visando soluções ambientais, porém sem mexer nos valores sociais e humanos, pode apresentar desafios insolúveis. O consumismo e o materialismo devem ser evitados, sob pena de não se consumar a soberania e a cidadania das nações emergentes.
O caminho natural e verdadeiramente libertador das sociedades emergentes é o do “medievalismo”, visando criar segurança social em todos os aspectos. E não certas “utopias sociais” que não mexem nos verdadeiros problemas de valores e estruturas, sobretudo em culturas novas ainda sem soberania real. 
Cidades fortificadas e castelos foram por séculos e milênios, sólidos baluartes de libertação contra baderneiros, contra invasores e contra opressores. A organização social da cidade foi e será a grande fórmula para a libertação humana, agora todavia com maior valorização do meio ambiente.
Seria suficiente em princípio, propor através de resoluções alcançadas em consensos mínimos, que a cidade não fosse vulnerável a invasões fortuitas, ou ao acesso de estranhos e desconhecidos, em cidades rururbanas sempre com poucos milhares de almas. 

Palmanova, Itália
Ninguém entra em nossa casa se não for convidado. E ninguém ingressa num país sem ser identificado -alguns países até selecionam os seus turistas! Porque razão as cidades deveriam ser assim abertas como são hoje?!
As cidades até podem sem fraqueadas mas devem contar com sistemas de segurança eficazes, inclusive na esfera cultural. Cada vez mais, bandos e quadrilhas invadem as pequenas cidades para saquear, sabendo da vulnerabilidade destes locais. E cada vez mais, se tenta impor produtos de baixa qualidade e até perigosos aos cidadãos. Tudo isto deveria ser controlado e evitado em nome do Bem Comum.
Condomínios fechados são uma tendência crescente –embora ainda seja um luxo para poucos!-, e até os prédios públicos começam a exigir credenciais aos visitantes.


Atenas, Grécia
É preciso voltar a socializar o bem comum, mas isto não passa pela cidade grande “impessoal” ou pela cultura-de-massa. A cidade pequena é orgânica, isto é, é intercomunicável ou integrada. Todas as pessoas no mínimo se reconhecem e a partir disto podem se relacionar e intercambiar informações e serviços.
Afinal, este foi também o nascedouro da república e da democracia, como governo geral e social, capaz de fomentar inclusive o direito universal. Adaptada do ambiente tribal, a democracia antiga era direta e contava com o governo dos sábios e dos nobres, enfim, pessoas preparadas com cultura e pela disciplina, devidamente reconhecidas pelos povos como hábeis para as suas funções, e não através de plutocratas e mercadores de fantasias políticas, devotados apenas a interesses mesquinhos e sem preocupações reais com a cultura e a cidadania.

Leia também:
O Neomedievalismo
A estrutura social clássica ou o Primado da Cultura
O mito da exploração social pré-capitalista


Luís A. W. Salvi é autor polígrafo com cerca de 150 obras, e na última década vem se dedicando especialmente à organização da "Sociologia do Novo Mundo" voltada para a construção sócio-cultural das Américas.
Editorial Agartha: www.agartha.com.br
Contatos: webersalvi@yahoo.com.br 
Fones (51) 9861-5178 e (62) 9776-8957

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